Quartetos de Verso
Para que o discurso não fiquei muito espremido dentro da base, é comum dividir o assunto em quartetos de verso (dois versos, ou seja, quatro fases). Estes quartetos são como parágrafos dentro de um texto. É muito comum que dentro de um único quarteto sejam compartilhadas as mesmas rimas, mesmo que não de maneira completa. Os refrões mais comuns são quartetos, apesar de atualmente ter se proliferado refrões com apenas um verso ou até mesmo uma frase. Abaixo está “Soldado do Morro”, de MV Bill, onde o primeiro e o segundo verso se completam, formando um quarteto (um verso de quarto frases).
“A violência da favela começou a descer pro asfalto:homicídio, sequestro, assalto.Quem deveria dar a proteçãoinvade a favela de fuzil na mão.”
Indo mais além na montagem da letra, veremos que várias frases, vários versos, com seus quartetos ou mesmo suas rimas soltas, formam um trecho completo dentro da letra, marcado por um intervalo antes e depois. Estes intervalos podem ou não ser ocupados com refrões, samplers, scratches e demais intervenções. Mas estes trechos completos, que poderemos chamar de Estrofes ou Partes são a divisão mais clara dentro de uma letra. Como foi dito anteriormente, o mais comum é que cada letra tenha três partes, mas isto varia muito. Letras cantadas apenas por um único rapper costumam ter duas partes, talvez como uma forma de tornar a letra menos cansativa e enfadonha para aqueles que a estão escutando – ou então partes menores. A cartilha básica do RAP diz que as letras devem ser divididas em três partes, contendo cerca de 30 frases cada uma (15 versos). Apesar de ser rigorosamente contra fórmulas para se construir um RAP, concordo que no início se prender à esta fórmula lhe dá mais liberdade para se preocupar com o conteúdo do discurso, e para organizá-lo melhor.
A seguir um exemplo (com alguns cortes), de toda a primeira parte de “Só Mais Um Maluco” (MV Bill):
"Direto do hospício, que chama de favela,aqui mais um maluco que não acredita em novela.Se a vida é bela, na tela tudo bem,quem é louco como eu veste a camisa-de-força também.Minha loucura é simples de ser compreendida,me transformar em canibal, preto suicida;inconformado mensageiro da verdade,vendo o povo agonizando às margens da sociedadeque massacra, destrói, humilha,transforma seu filho em ladrão e prostitui sua filha,te escravisa, te humilha, te mata,enquanto o verdadiro ladrão usa terno e gravata.Não manuseia fuzil nem escopeta(mata milhões de brasileiros só com uma caneta).Fica impune, não é preso– ele não é pobre (não), não é preto.Se for condenado fica em cela separadacom televisão, frigo-bar e água gelada.(...)Trema na base quando vê o Bill...Chama a polícia quando vê o Bill...Aquele preto com o corpo tatuadodenunciando a pobreza e a miséria no Brasil."
Relevante lembrar que mesmo após escrever as partes da letra, é necessário prestar muita atenção se elas formam uma unidade, se elas são coesas entre si. A falta de coesão entre as letras é um problema corriqueiro dentro de grupos onde cada integrante escreve sua própria parte, que normalmente são unidas em alguns poucos ensaios. Sei que é difícil para nosso ego termos que modificar algo que escrevemos para que se adapte ao conteúdo de algo que outra pessoa escreveu, mas este é um sacrfício importante para a clareza do discurso. Pegaremos, mais uma vez, como exemplo, os Racionais MC’s:
Existe um boato (seria um mito?) de que não existe muito entendimento entre Mano Brown e Edy Rock. E, de fato, isto pode ser visto dentro das próprias letras. Desde o álbum “Sobrevivendo no Inferno” que ambos raramente compartilha uma mesma letra. Está certo, Mano Brow falou no refrão de “Em Qual Mentira Vou Acreditar”, e a participação de Edy Rock dentro de “Capítulo 4, Versículo 3” é tão diferente do resto da letra, que provavelmente foi um trecho de outra letra inacabada que ele resolveu acrescentar. Na verdade, me lembro da primeira vez que ouvi “Capítulo 4, Versículo 3”, se não me engano como abertura de um show no Ginásio do Guarani (1994 ou 1995?). Naquela época apenas a primeira parte foi cantada, claramente como uma letra do tipo introdução, onde predomina as afirmações em primeira pessoa (“minha intenção...”, “eu sou...”, “eu tenho uma missão...”, etc.). Se esta bombástica introdução foi aumentada a ponto de se tornar uma letra completa de protesto, eu não sei, mas vejo claramente que o trecho de Edy Rock não se encaixa com perfeição. Assim como a letra “Negro Drama”, do álbum “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia” possui duas partes muito diferentes. A primeira, candada por Edy Rock, e a segunda por Mano Brown. Não existe interação entre os dois na letra, e tanto a primeira quanto a segunda parte poderiam ser facilmente duas letras diferentes dentro do mesmo álbum. “Negro Drama”, na verdade, é uma letra bem ao estilo de Edy Rock, um estilo que se aprimora desde a magistral “Periferia é Periferia (em qualquer lugar)”.
Dito isto, encontre um ponto que ligue as partes de sua letra e os argumentos nela, seja ele qual for, e reforce esta ligação. O que torna sua letra unificada? Seria o estilo das rimas? O ritmo da levada? O estilo da narrativa? A letra “2092: Lei da Rua”, do Xis trazia três rappers de estilos bem diferentes dividindo a mesma letra – Xis, Kid Nice (Sistema Negro) e Ébano (Potencial 3). Nesta letra pode ser encontradas diversas formas de unificar um discurso conjunto. Eles narram a história como se estivessem no futuro, relembrando o passado; referem-se algumas vezes uns aos outros, seja com uma frase famosa do parceiro ou com algo que já foi dito em sua parte; e por fim o rapper que iniciou a letra também a termina, formando assim um círculo que se fecha e unifica as idéias. Sei que muitos rappers preocupados com o discurso podem torcer o nariz quando exemplifico com Xis (que se prende mais ao estilo e menos ao discurso), mas garanto que pode ser uma rica fonte de estudos sobre a rima.
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