Antes de realmente entrarmos na teoria, deixe-me falar minha opinião pessoal sobre o RAP. Isto já gerou muitas discussões entre eu e meus amigos, e espero que gere muitas outras ainda, pois seria realmente tedioso se todos tivessem as mesmas opiniões. Para mim, o RAP, não é uma música. Irei explicar melhor: música, ao meu ver, é uma forma de arte, que de maneira abstrata desperta nas pessoas sentimentos e desperta opiniões muito pessoais. O RAP, não lida com o abstrato, e sim com o concreto. O discurso está pronto, e não abre margem para interpretações (não a grande maioria). Ele lhe diz o que o rapper pensa, só restando para você concordar ou não. Posso contar nos dedos de uma única mão quantos RAP’s eu vi que me mostravam mais de um lado da mesma questão, e que não fossem opiniões pessoais de quem a escreveu. Muitas vezes apenas opiniões, sem qualquer embasamento que as sustentassem. Mas isto não é uma crítica, apenas uma constatação. Ficaria extremamente grato de ver rappers construindo letras que me contestassem. O RAP, em minha humilde opinião não é uma música, e sim um discurso.
Um discurso. E é ai que sua relevância aparece. Ele é uma técnica de discurso construída sobre uma base melódica para maximizar seu poder de penetração na mente das pessoas. Na mente das pessoas a que se destina, que são aqueles que gostam desta base melódica. Para aqueles que não gostam, o discurso pode se mostrar enfadonho e tedioso, ou até mesmo anarquista. Mas aqueles que gostam da base escutam-no com maior clareza, por se deixarem levar pela melodia e abrirem suas mentes e seus corações à Mensagem. Isto torna o duscurso-RAP um dos mais poderosos que existem.
Necessário frisar que quando eu falo sobre RAP, em todos os textos que irei postar aqui, estou me prendendo especificamente ao RAP Nacional (isto é, feito no Brasil e cantado em português). O RAP feito nos Estados Unidos, é totalmente diferente. Não se pode comparar ambos pois são construídos em realidades sociais completamente diferentes e basta conhecer um pouco de antropologia para saber que qualquer discurso social está intimamente ligado ao seu contexto cultural. Apenas para reforçar esta diferença, note que nos Estados Unidos, o RAP é a música popular, é a música que mais toca nas rádios. Longe do que acontece no Brasil, onde o RAP é mais underground e próprio dos guetos/periferias. Com o passar dos anos, o RAP norte-americano deixou de se preocupar com o discurso enquanto se tornava mais super-produzido e musical. Aqui o RAP seguiu um caminho inverso, se prendendo ao discurso ao passo que se importava cada vez menos com a melodia.
Você duvida desta afirmação? Veja as letras dos RAP’s norte-americanos. A grande maioria discursa sobre festas, mulheres e ostentação, cantados sobre bases musicais tão perfeitas que torna-se impossível escutá-las sem ao menos balançar os ombros pra lá e pra cá. A vontade é desfilar dentro daquele carro enorme, com suspensão estilo “Os Donos da Rua”, tocando um RAP nervoso no talo.
Já para analisar o RAP brasileiro, podemos pegar como exemplo máximo os Racionais MC’s, inquestionavelmente o grupo de maior relevância dentro do cenário nacional. Começaram com um discurso forte, apesar de muitas vezes contraditório, feito sobre uma melodia que tentava ser tão relevante quanto ao discurso mas não conseguia ser pela produção precária. Com o álbum “Sobrevivendo no Inferno” eles conseguiram trazer um discurso incontestavelmente mais sólido e profundo, com uma base no mesmo nível. Letra e música estavam em seu ponto máximo. E como sempre acontece, surgiram incontáveis grupos imitando os Racionais MC’s, mas sem a força do discurso destes. Desfilaram por alguns anos músicas superproduzidas e sem qualquer discurso que as sustentassem. Foi quando o Racionais mostrou mais uma vez estar à frente de todos. Lançaram “Nada Como Um Dia Após o Outro Dia”, onde o discurso, ainda coeso e potente, agora era feito sobre uma base melódica propositalmente fraca, ligada aos antigos RAPs da primeira metade da década de 90. Vemos em “Nada Como Um Dia...” músicas demasiadamente longas, ausência de refrões, personagens diferentes encarnadas pelo mesmo rapper (o que é impensável para uma música feita para shows) e até mesmo a total ausência da melodia no que chamam de no-RAP, o RAP apenas como discurso (na música “12 de Outubro”, uma técnica que o próprio Mano Brown já havia utilizado em sua participação no álbum “K.L.Jay. nas Batidas vol. 3”).
Esta discussão é de extrema importância para você que quer fazer RAP, pois deve ter em mente, antes de escrever, qual será o papel que será dado ao discurso e à melodia e até mesmo qual a sua opinião sobre este dilema. Para você o RAP é mais música ou mais discurso? Neste caso, reflita sua opinião em suas letras. Não faça RAPs sem “conteúdo” se dá importância para o discurso. Sim, é extremamente difícil dizer algo relevante neste nosso tempo de informação demasiada – mas ninguém disse que seria fácil.
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