001: Introdução: Os Primórdios da Teoria


Quando Daniel “Doc” me mostrou o refrão da música que estava compondo não pude evitar o desejo de compor daquela forma. Eu estava a muito tempo escutando RAP, e fazia parte de um grupo de pessoas que respiravam RAP, falavam sobre RAP e, indiscutivelmente, amavam RAP. Mas, diferente de vários dos meus amigos, eu não sabia fazer RAP. Doc era (ainda é?) um hábil rapper. Ele compunha com uma desenvoltura, e facilidade que colocáva-mos ele rapidamente entre os melhores que conhecía-mos neste ramo. Não apenas em fazer as rimas e encaixá-las, mas também em fazer um discurso forte, e cantá-lo de maneira que ele tornasse mais intenso ainda.

Começo esta discussão lembrando este fato justamente por ter sido Daniel “Doc” o responsável pela minha decisão de aprender a compor. Aconteceu quando encherguei que o RAP, antes de ser um estilo musical, é também uma forma de discurso. Uma técnica de oratória. Esta revelação que mudou minha percepção sobre o RAP aconteceu exatamente na primeira vez que vi Doc cantar. Se não me engano era 1995, estávamos eu, ele e Josias (“2Pac”) na prefeitura de Campinas, onde o grupo do Doc iria fazer uma apresentação (naquele andar inferior à biblioteca municipal). Mas tudo havia dado errado. Os outros integrantes do grupo não compareceram, o público não compareceu, e logo depois descobrimos que o show havia sido cancelado. Estávamos nós três lá, sem nenhum lugar para ir, conversando ativamente sobre música, quando Doc quis nos mostrar duas letras que havia selecionado para cantar. Com a base instrumental saindo precariamente de um walkman, a primeira música era uma introdução forte e direta. A segunda letra foi a que chamou mais atenção. Ela contava uma crônica sobre um assalto (contado em detalhes meticulosos), seguido da execução de uma família, onde apenas um garoto sobrevive. Em seguida a narrativa se aprofundava na vida que este garoto órfão teve e como o crime foi sua única saída. Mas a narrativa era cortada para a história do líder da quadrilha que fez o assalto, em um arco dramático de fazer roteirista de cinema se invejar. A realidade cruel daquela letra era tamanha, que nós que a escutávamos, ficamos emocionados com os fatos que ela contava. Neste momento eu não tive qualquer dúvida de que o RAP era uma poderosa ferramenta de comunicação. Que não era apenas um estilo musical, e sim um discurso ritmado.

Foi quando este livro (que hoje transformo em blog) surgiu. Determinado a fazer RAP, mas sem saber como começar, decidi estudar a maneira como ele era feito, com um olhar objetivo e acadêmico. Não existem escolas para se ensinar RAP, não existem livros que ensinem suas técnicas (ou assim diz minha ignorância), mas existem RAPs em abundância. Desta forma, estudei como os rappers escreviam, como rimavam, quais seriam os padrões e técnicas por trás desta tarefa, etc. Li centenas de letras procurando diferenças, comparando-as, procurando padrões e formas de ensinar a reproduzir aquelas letras. A tempos me desliguei do RAP, e nunca cheguei a cantar as dezenas de letras que compus neste processo de aprendizagem, mas este conhecimento adquirido e acumulado precisa ser passado adiante.

Nos próximos posts irei lhe mostrar a Teoria da Rima – as ferramentas e conhecimentos necessários para se compor um RAP. Eles foram escritos para quem quer aprender a versar neste estilo, mas também foram escritos para aqueles que já sabem se aprimorarem. Dito isto, algumas pessoas que não possuam o conhecimento mínimo sobre o RAP podem sentir um pouco de dificuldade em entender alguns termos ou conceitos básicos (neste caso, basta perguntar-me que eu explicarem de forma mais aprofundada). No entando, o RAP não abrange apenas rimas e palavras, ele engloba conhecimentos dos mais variados, como política, formas de argumentação, oratória, e características culturais. Procurarei explicar tanto a teoria da rima propriamente dita quanto estes conceitos mais subjetivos. Mas, definitivamente, para se fazer RAP bem, é necessário viver o RAP.

"Descanse seu gatilho, descanse seu gatilho,
que no trem da malandragem, meu rap é o trilho."
[Racionais MC's - Fórmula Mágica da Paz]

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